Quarta, 12 de Dezembro de 2018
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A morte foi tragada pela VIDA.


Ó Morte, onde está a tua vitória? (1 Cor. 15, 54 - 55)
Por mais que exista morte no mundo, a vida insiste em viver. Somos a todo instante enganados pelos nossos sentidos quando pensamos que a morte vence a vida.
Com um olhar mais atento que vai além do nosso olhar cotidiano, poderemos ver que a vida, todos os dias vence a morte e a novidade nasce. São coisas às vezes tão miúdas que fogem à nossa percepção. Enquanto passamos apressados de carro ou de ônibus, flores nascem em cima dos viadutos. Mesmo nas pequenas porções de terra que acumula no asfalto, a vida vai brotando devagarzinho. “Enquanto a morte parece dominar o mundo, pode surgir repentinamente o novo, que até um segundo atrás nem sequer existia! De modo inesperado, novas dimensões e formas começam a desenvolver-se. Assim a sexta-feira da morte é transformada pela bondade de Deus, em páscoa cósmica!” O universo é bondade, é renovação, é dinamismo, a morte neste caso é parte do processo de vida. Enquanto uma estrela morre, milhares estão nascendo. A vida e a morte estão sempre se encontrando, se abraçando, fecundando uma a outra para que o universo possa continuar a existir e resistir. O que existe de verdadeiro é a vida, a morte está aí, mas não persiste, ela não tem uma existência em si mesmo. Mesmo quando ela chega à vida triunfa. Quantas vezes a morte de homens e mulheres foi causa de vida e esperança para o mundo? Aqueles que realmente vivem sabem disso. D. Oscar Romero ao perceber que inevitavelmente a sua opção pelos pobres de El Salvador o levaria a morte disse: “O martírio é uma graça que não creio merecer. Mas se Deus aceita o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança será logo uma realidade; seja pela libertação de meu povo e como testemunho de esperança no futuro”.
A morte na verdade é cobrança de vida, ela é o indicativo de que a vida é soberana. Todas as vezes que nos encontramos numa situação de morte, invocamos a vida, lutamos pela vida. A morte é situação limite que angustia a todos nós fazendo-nos, mesmo que inconscientes, lutar por uma situação de vida melhor. Toda luta é pela vida, mesmo aquela que resulta em morte. Quando os presos de uma penitenciária se revoltam querendo liberdade, é a vida que eles querem. Da mesma sorte quando alguém é morto, isso nos deixa indignados porque acreditamos na vida e achamos que ela é um bem superior. Então fazemos campanhas, lutamos contra a violência, cobramos medidas do governo, e de aparentes situações de morte, fazemos brotar a vida.
No fundo a busca pela vida é a pergunta fundamental da humanidade pelo sentido da sua existência, pois como diz Gonzaguinha: “A vida é um sopro do criador numa atitude repleta de amor”. Pode até ser que a vida seja uma paixão inútil, mas, é essa inutilidade que realça a sua beleza, ela é tão espontânea que não tem preço, não tem começo e nem fim, é eterna. Ela insiste em existir nos grotões mais ermos. Onde tiver o mínimo necessário de possibilidade de existência, lá está ela mesmo que raquítica desafiando a morte. Enfim, destas duas realidades - vida \ morte - só se é possível dizer alguma coisa numa linguagem poética. Por isso, finalizo com as palavras do poeta Rubem Alves: “O sentido da vida se dependura no sentido da morte. É assim que a religião entrega aos deuses os seus mortos em esperança… entre as casas dos deuses e a casa dos mortos brilha a esperança da vida eterna para que os homens se reconciliem com a morte e sejam libertos para viver”.
Pe. Hermano José Pereira, Opraem.

 

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